top of page

Saudade infantil

  • 5 de mar.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 10 de abr.


No banho, lugar sagrado das revelações infantis (as mães bem sabem), onde a alma parece escorrer junto com a água quente, ouvi a voz frágil de uma menina ser gigante.


— Mamãe, eu sinto muita saudade do meu avô... e sinto inveja dos meus amigos que têm avôs pra contar histórias... — disse, e a dor veio líquida, como as lágrimas que não pedem permissão.


E ali, no vapor do chuveiro, a vida se expôs nua. A inveja infantil, tão honesta, tão humana. Não a inveja corrosiva dos adultos, essa que apodrece. Mas uma inveja pura, que revela o que falta, o que dói.


— Tudo bem sentir inveja, Rafinha... — eu disse, como quem aprende enquanto fala.


— Mas é uma inveja muito grande, mamãe...


— Eu posso imaginar... Às vezes a gente sente. E tudo bem. Quem sabe seus amigos não sentem inveja também? Talvez da sua tropa de primos, por exemplo... A vida é assim: nos dá algumas coisas e nos nega outras.


O choro continuou. Não era um choro barulhento, era um choro que parecia ter séculos.


— Você pode colocar uma foto do vovô no meu quarto? Sinto que tô esquecendo de como ele é...


— Claro, filha. Foi uma ótima ideia, vamos fazer isso...


E então, o pedido mais bonito, mais animal, mais humano:

— Posso sentar no seu colo pra ver se minha tristeza passa?


Sim. Porque às vezes a cura não vem de palavras. Vem do calor da pele, da batida do coração de quem ama. Ela chorou mais um pouco no meu colo, e ali estávamos: mãe e filha, duas mulheres perdidas e encontradas na água morna de um dia qualquer.


Sugeri então uma dança ancestral:

— Vamos cheirar a florzinha e assoprar a velinha... imaginar que a tristeza, a inveja e a saudade estão indo embora com a água. Elas vieram, nos disseram algo, e agora podem seguir viagem...


Ela fechou os olhos, mãozinha no ar, dando tchau para as emoções que a visitaram como hóspedes intensas, mas temporárias.


— Essas emoções são ruins, mamãe?


— Não, meu amor... Elas só precisam ir porque já fizeram o que tinham que fazer. Vão voltar, claro. Mas por hoje, já cumpriram seu papel.


Silêncio. Inspiração. Paz.


— Pronto, mamãe. Me sinto melhor. Podemos sair do banho.


E foi assim, como num poema escondido no azulejo, que eu vi o milagre: uma criança aprendendo a dançar com suas dores.


E eu também.


 
 
 

Comentários


Gostamos da sua visita.

Fica um pouco mais.

Pode circular, ouvir uma música, ler alguma coisa com calma…

Esse espaço foi feito pra isso —
e, de algum jeito, também pra você.

bottom of page