Matemática Surrealista
- há 7 dias
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Hoje fiquei comovida em uma conversa.
Há um homem no caminho que faço de carro, ele está quase sempre no mesmo lugar. Uma pessoa em situação de rua. Não sei seu passado, não sei seu destino. Sei apenas que ele toca violão. E toca com uma entrega rara, dessas que não pedem plateia, nem aplauso. Ele simplesmente está ali, faça chuva ou sol.
Por muito tempo, eu só observei. De dentro do carro, desse invólucro que nos protege, e ao mesmo tempo, nos separa. Mas havia algo nele que me mobilizava: talvez a delicadeza de quem ainda cria algo bonito no meio da dureza da vida.
Hoje, eu parei.
Parei o carro numa rua de duas mãos, interrompendo por alguns instantes o fluxo impaciente do mundo. Abri a janela e chamei:
— Ei… sou sua fã.
Ele veio. Veio rápido, com um sorriso meio surpreso, meio acostumado à invisibilidade, mas ela estava sendo quebrada.
— Oi, moça?
— Sou sua fã, repeti: eu passo aqui muitas vezes… e eu te observo.
Ele sorriu. E, naquele exato instante em que a conversa começava a nascer, uma buzina atrás de mim cortou o momento. Um som áspero, urgente, como se dissesse: “rápido, você não pode parar”.
Eu me agitei. Ele não.
Ele se inclinou um pouco mais perto e disse, com uma calma que parecia maior que a rua inteira:
— Ei… não se sinta acelerada pela pressa do outro. Nem sempre as pessoas estão no mesmo tempo que a gente. Cada um encontra seu caminho… ele pode seguir pelo dele, e você pelo seu.
Isso me comoveu, não era só um conselho. Era um convite silencioso para desacelerar por dentro.
Eu sorri. Algo em mim assentou.
E então, como quem muda de plano sem esforço, ele disse:
— Presta atenção aqui… você sabia que eu sou um artista surrealista?
E de repente, a rua virou um salão de ideias.
Aquilo me pegou de surpresa, e me abriu um sorriso imediato. Mostrei a tatuagem no meu braço, o relógio derretendo, uma homenagem a Salvador Dalí. Ele vibrou como se tivesse encontrado uma cúmplice no meio do caos.. Falou animado sobre arte, sobre uma colaboração de Dalí com Walt Disney, sobre coisas que eu não conhecia, mas que, de repente, eu queria conhecer. Ele me deu, ali, uma curiosidade nova, como um presente rápido, mas cheio de sentido.
E isso me comoveu de novo.
Porque ele também me observava. E, naquela troca breve, me ofereceu algo para levar comigo.
Mas ele ainda não tinha terminado.
Disse, com um brilho meio travesso:
— Sabe… eu estava agora mesmo fazendo uma conta. Uma matemática surrealista.
Confesso: matemática sempre me pareceu uma língua morta. Mas ali, na boca dele, virou outra coisa, perguntei como funcionava.
Enquanto outros carros insistiam em nos lembrar da pressa, ele explicou:
— Eu pensei que 1 de mim mais 1 de mim daria 3… mas cheguei em outro resultado.
Entrei no jogo curiosa:
— E qual foi?
Ele respondeu, com uma convicção simples:
— 1 de mim mais 1 de mim é igual a 1 inteiro de mim.
E, de repente, fez sentido. Aquilo não era sobre números, era sobre algo mais fundo.
Arrisquei:
— Talvez seja você ao quadrado…
Ele riu, com entusiasmo de quem não perdeu a capacidade de brincar com a vida:
— Faz sentido… ao quadrado eu fico mais inteiro, mais intenso.
Rimos juntos.
E, de alguma forma, aquela conversa abriu uma pergunta silenciosa dentro de mim: quantas vezes eu me divido tentando somar? Quantas vezes procuro partes minhas como se estivesse sempre faltando algo?
Ele, ali com tão pouco, segundo a lógica do mundo, parecia fazer um movimento contrário: o de se bastar.
Cisto. Esse era o nome dele.
Fiquei pensando que talvez existam pessoas que fazem contas que exigem coragem. Não a coragem grandiosa, mas uma outra, mais íntima, de sustentar a própria lógica num mundo que vive dizendo que a gente nunca é suficiente.
Saí dali com algo difícil de nomear.
Não foi só um encontro, não foi só uma conversa, foi um desses raros momentos em que alguém, no meio do ruído, te lembra, com delicadeza, que a vida não precisa ser vivida na pressa dos outros.
E que, talvez, ser inteiro não seja uma soma lógica, e sim uma decisão.





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