Uso do erótico
- 5 de mar.
- 2 min de leitura
Atualizado: 10 de abr.

Lendo o texto poderosíssimo de Audre Lorde "Usos do erótico: o erótico como poder", me fez pensar algumas coisas importantes, vejo só: o problema de descobrir o próprio erotismo, não o da pornografia barata, mas o da pulsação íntima da vida, é que você fica estragada para sempre.
Estragada para o raso.
Depois que você sente o corpo vibrar diante de uma ideia, não dá mais para fingir entusiasmo em reunião burocrática.
Depois que uma música te atravessa de verdade, não dá para chamar barulho de emoção.
Depois que você experimenta uma conversa que abre universos, não aguenta mais diálogos plastificado.
O erótico é cruel.
Ele te ensina o gosto da intensidade, e depois te joga numa sociedade de sabores artificiais. Vivemos num mundo higienizado, instagramável, performático.
Todo mundo parece feliz. Todo mundo parece produtivo. Todo mundo parece desejável. Mas parece.
Não é que você fique exigente. Você fica lúcida. Relações sem presença viram cansaço.
Ambientes sem criatividade viram asfixia. Discursos prontos viram ruído.
Só que há uma ironia bonita nisso tudo: quando as pessoas decepcionam, o mundo ainda pulsa.
Uma ideia ainda incendeia. Um trabalho ainda pode ter tesão. Uma música ainda pode salvar a semana. Uma noite bem dormida ainda pode reorganizar o caos.
Talvez o erotismo não seja sobre pessoas.
Talvez seja sobre vitalidade. E vitalidade não é garantida pelo outro. É um compromisso íntimo com aquilo que nos faz vibrar.
O trágico?
Depois que você aprende a viver com essa régua, não consegue mais negociar sua alma por estabilidade emocional de plástico.
E aí começa o verdadeiro problema: Você já não quer sobreviver.
Você quer viver. E viver, convenhamos,
dá muito mais trabalho.
Para ler o texto completo de Audre:




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